Dia 05 de maio - Dia Mundial de Higienização das Mãos

Pesquisa liderada pela Universidade Federal de Minas Gerais aponta baixa adesão à Higienização das Mãos entre profissionais de saúde

Por Isis Breves | Publicado em 03/05/2016

a esquerda para direita: Alanna Gomes, Taysa Garcia, Écila Mora, Síntia Evangelista, Nelma Braz e Prof. Adriana Oliveira da UFMGDia 05 de maio é o Dia Mundial de Higienização das Mãos (HM). Ainda há muito a fazer para se elevar a adesão às práticas de higiene das mãos no Brasil visando à segurança do paciente. A pesquisa intitulada “Panorama dos Desafios Globais da Organização Mundial de Saúde (OMS) para Segurança do Paciente em Hospitais de Grande Porte em Minas Gerais” liderada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), apresenta resultados preliminares de baixa adesão dos profissionais de saúde à prática de higienização das mãos preconizada pelo protocolo da OMS. 

Para falar sobre o tema, o Centro Colaborador para a Qualidade do Cuidado e a Segurança do Paciente (Proqualis) do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict) da Fiocruz entrevistou a coordenadora da pesquisa, a Professora Associada da UFMG e Pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Adriana Cristina de Oliveira. 

Proqualis: A higienização das mãos é umas das frentes de estudo do projeto “Panorama dos Desafios Globais da OMS para Segurança do Paciente em Hospitais de Grande Porte em Minas Gerais”. Qual é a importância da estratégia multimodal preconizada pela OMS nesse processo? Poderia nos falar sobre os objetivos e resultados da pesquisa?

Adriana Cristina (UFMG): “O projeto Panorama dos Desafios Globais da Organização Mundial de Saúde para Segurança do Paciente em Hospitais de Grande Porte em Minas Gerais tem como proposta avaliar a conduta de hospitais de grande porte no estado de Minas Gerais frente aos desafios globais para segurança do paciente. O que temos percebido é que os desafios globais apesar de amplamente disseminados no mundo, ainda não se fazem presentes e conhecidos nos mais variados locais. E, em se tratando do Brasil, pela sua dimensão e diversidade social, econômica e política, incorporar boas práticas para a melhoria da qualidade assistencial ainda constitui uma realidade incipiente. Observa-se algum desenvolvimento em centros maiores, mas a realidade encontrada em hospitais do interior dos estados, é outra, isso de norte a sul do país. 

Especificamente sobre a higiene das mãos, nossas pesquisas têm revelado dados extremamente inquietantes. Estes dados foram evidenciados, por exemplo, na tese de doutorado intitulada o Impacto da estratégia multimodal na adesão à higiene de mãos entre a equipe multiprofissional em um hospital universitário. 

Para se ter uma ideia, foram avaliadas 9.500 oportunidades de higiene das mãos (HM) por observação direta dos profissionais. A adesão verificada foi de 20,8%, uma adesão completamente desafiadora; porém dentro do que está apontado como a taxa de adesão global à higiene de mãos, em que taxas inferiores a 50% são registradas.  

Nesse contexto, após a observação direta, conduzimos uma entrevista com o profissional de saúde. Neste momento lhe foi questionado em quanto, percentualmente atribuía sua adesão à higiene de mãos em suas atividades cotidianas. Para nossa surpresa, a taxa autorreportada foi de 88,3%. Ou seja, a percepção do profissional de saúde sobre o ato de higienizar as mãos não aponta uma coerência com a real adesão observada. 

Outro ponto importante desse estudo foi a constatação de que os profissionais de saúde ainda não incorporaram conceitos corretos para a higiene de mãos, como por exemplo, a indicação de uso da fricção antisséptica, com preparação alcoólica ou quando usar corretamente água e sabão após procedimentos e/ou contatos com o paciente, fluidos corporais e/ou ambiente. 

Assim, a estratégia multimodal vem de encontro a esses desafios, a partir da recomendação de adoção de componentes chave, que visam elevar as taxas de adesão à HM e estão relacionados às mudanças institucionais, educação/treinamento, avaliação e feedback, lembretes no ambiente de trabalho e clima organizacional seguro. Esta estratégia ainda objetiva claramente que, até 2020, a cultura de higienização das mãos atinja a excelência, respeitando metas a serem definidas de acordo com a realidade de cada região”. 

Proqualis: Como motivar as equipes de saúde à adesão da Higienização das mãos preconizada pelo protocolo da OMS? Quais iniciativas sugere? 

Adriana Cristina (UFMG): “A motivação para melhorar a adesão dos profissionais à higiene de mãos, perpassa uma variedade de alternativas que coincidem claramente com as bases defendidas e recomendadas pela estratégia multimodal da OMS. Para que o profissional de saúde se sinta motivado a higienizar suas mãos, é necessário, que nossas instituições possuam uma infraestrutura adequada para HM, com logística apropriada de localização das pias, produtos e soluções padronizados para uso nas mãos, dispensadores de álcool funcionando corretamente nas unidades de internação, nos pontos ou locais de assistências à saúde, de acordo com o que institui a Resolução da Diretoria Colegiada de número 42 de 2010, que torna obrigatória a disponibilização de preparação alcoólica para fricção antisséptica das mãos, pelos serviços de saúde do país. 

Precisamos também treinar, monitorar e, supervisionar os profissionais de saúde tornando-os parceiros, membros de um time de agentes ativos que compreendam claramente o impacto da baixa adesão a higiene de mãos na evolução do quadro de um paciente. Lembramos que a HM tem sido recomendada desde 1846, por Semmelweis, e fortemente indicada na atualidade como medida fundamental para reduzir a transmissão da infecção cruzada entre pacientes e transmissão de diversas doenças como estamos vivendo nesse momento a gripe por H1N1. A HM é amplamente reconhecida como uma medida simples, de baixo custo e de alta efetividade para a prevenção de infecções. 

Outro aspecto fundamental previsto também pela estratégia multimodal, que temos visto, como sendo de alta relevância, refere-se ao papel da própria instituição, na disseminação da cultura de segurança. É importante que o profissional de saúde veja e sinta claramente que a higiene das mãos é valorizada pelo seu colega, pelo seu superior, pelo gestor, pelo diretor, ou seja, que a instituição tenha uma cultura de segurança que de fato se consolide na prática assistencial. É necessário que a melhoria da adesão à HM seja um projeto institucional e coletivo, que seja destacada como parte de um planejamento consistente e efetivo, e não apenas por ocasião de datas comemorativas ou campanhas institucionais”. 

Proqualis: Como envolver o paciente e seus familiares nesse processo? 

Adriana Cristina (UFMG): “A partir de 2004, quando a OMS lançou formalmente a Aliança Mundial para a Segurança do Paciente, foi recomendada aos países membros, uma maior atenção a este tema, visando minimizar os riscos de eventos adversos aos pacientes nos serviços de saúde em todos os países do mundo. 

Nessa perspectiva, o clima de segurança institucional foi destacado como um dos eixos fundamentais para um ambiente favorável que estimule a participação dos gestores, profissionais de saúde e, principalmente o envolvimento dos pacientes e familiares no seu cuidado, sobretudo na melhoria da HM nos serviços de saúde. 

Para avaliar essa recomendação, de envolver o paciente, fomos a campo buscar entender os fatores que influenciam a participação dos pacientes na adesão à higienização das mãos entre profissionais de saúde, originando como produto uma dissertação de mestrado defendida em abril desse ano. Nesse trabalho, constatamos que, mesmo com o incentivo ao envolvimento do paciente orientado pela OMS, nas instituições públicas, nossos pacientes ainda não estão preparados para essa participação. Além disso, inferimos que, possivelmente mesmo nas instituições privadas a situação não seja diferente. 

Verificamos nesse trabalho que, a respeito da disponibilidade dos pacientes em lembrar os profissionais de saúde de higienizar as mãos se eles se esquecessem, 65,2% dos pacientes apresentaram respostas positivas para essa atitude. No entanto, apenas 19,4% de fato, questionaram a algum profissional sobre a higiene de mãos, em algum momento de sua internação. Constatamos ainda que, por outro lado, a disponibilidade em perguntar ao profissional sobre a HM subiria para 83%, caso, o paciente observasse outros pacientes também lembrando ou perguntando ao profissional de saúde se este higienizou suas mãos. 

Além disso, registrou-se ainda que, no grupo de pacientes que se disponibilizava a lembrar/questionar os profissionais, esses se sentiriam confortáveis em perguntar de forma semelhante a todos os profissionais de saúde. No entanto, os pacientes acreditavam que os profissionais sabiam o momento certo de higienizar as mãos e muitos receavam que, ao perguntar ao profissional se este higienizou suas mãos, tal atitude poderia influenciar negativamente no seu tratamento ou relacionamento com a equipe assistencial. 

Nós também entrevistamos profissionais de saúde e chamou-nos atenção o fato de que, em quase sua totalidade, esses apontaram como positiva a participação do paciente em lembrá-los, caso se esquecessem de higienizar as mãos. No entanto, quando questionados se estariam abertos a usarem crachás com os dizeres “PERGUNTE-ME SE HIGIENIZEI MINHAS MÃOS”, 63,3% não estariam dispostos a utilizá-los. 

Os achados desta pesquisa em relação aos profissionais de saúde, ressaltam que, embora a sua maioria tenha registrado uma predisposição positiva quanto à participação do paciente em lembrá-los sobre a HM, os mesmos não se dispuseram a adotar estratégias incentivadoras dessa atitude ao paciente, o que suscita uma lacuna entre seu discurso e sua prática, distanciando-se da proposta do Programa da OMS, Paciente pela segurança do paciente. 

Diante desse contexto, precisamos reforçar que só envolveremos pacientes e familiares quando estivermos propensos à sua participação em seu tratamento, por meio de iniciativas voltadas para a sua educação, conscientização e seu engajamento no processo assistencial, que se traduzam em uma quebra de barreiras, sobretudo de comunicação e com a criação de um ambiente colaborativo. 

Precisamos ter um projeto que ofereça ao paciente informações sobre sua segurança visando aprimorar a qualidade do cuidado através do seu empoderamento (patient empowerment), em um processo pelo qual estes adquiram um maior controle sobre as decisões e ações que afetam sua saúde. Ou seja, o paciente passa a compreender melhor o seu papel, a partir de conhecimentos e habilidades fornecidos pelos profissionais e instituições de cuidado de saúde, dentro de um ambiente facilitador, em que todos reconhecem as diferenças e incentivam sua participação. Quando o paciente se envolve no cuidado, aumentam as chances de sucesso do seu tratamento e, obviamente reduzem-se as possibilidades de ocorrência de eventos adversos. 

Proqualis: Quais são as perspectivas e desafios para o Brasil na sensibilização da higienização das mãos? 

Adriana Cristina (UFMG): “Educar, educar e educar! Educar gestores, profissionais de saúde, pacientes, familiares, alunos, escolares, enfim a população, a sociedade e a comunidade. Se falamos em HM, educar desde a base, na pré-escola, ensinar quando, como e por que as mãos devem ser mantidas limpas. Não podemos mais nos furtar de reconhecer as mãos como importante veículo carreador de micro-organismos.

A perspectiva, o futuro, depende dos nossos esforços hoje. Precisamos não só recomendar, mas treinar, educar, acompanhar, supervisionar e fazer com que nossos gestores também incorporem em seu cotidiano a importância das medidas institucionais voltadas para a melhoria da HM, que informem aos profissionais o valor e o reconhecimento dado a essa medida. 

Devemos destacar ainda que a HM previne a transmissão de micro-organismos potenciais causadores das doenças e sobretudo, favorece um cuidado seguro”.

Proqualis: Que ações na prática estão sendo realizadas para alcançar melhores resultados, sobretudo para o Dia Mundial de Higienização das Mãos? 

Adriana Cristina (UFMG): “Com base em nossas pesquisas e nos desafios globais para Higiene de Mãos não poderíamos deixar passar o dia 05 de maio sem envolver os profissionais e instituições para o Primeiro Desafio Global para Segurança do Paciente da OMS- Uma Assistência Limpa é uma Assistência mais Segura, visando reduzir as Infecções relacionada à Assistência à Saúde (IRAS) e priorizar ações relacionadas à melhoria da HM em Serviços de Saúde. Assim, estaremos realizando uma Blitz para reafirmar junto aos profissionais de saúde o fortalecimento da adesão à higiene das mãos como componente fundamental de uma assistência segura. Essa atividade será realizada junto à comunidade acadêmica da Escola de Enfermagem da UFMG e do Hospital das Clinicas, visando alcançar gestores, profissionais de saúde, docentes, discentes e comunidade em geral. As atividades terão aspectos lúdicos, práticos e de conhecimento técnico científico, propondo um momento de reflexão, pausa e ação para melhoria e conscientização da importância da HM, reafirmando o objetivo da OMS de que até 2020 a cultura de higienização das mãos tenha atingido a excelência de cada região”. 
Saiba mais: O Proqualis disponibiliza em seu portal, na página Higienização das Mãos, protocolos, literatura de interesse, aula e demais conteúdos para disseminar a melhoria das práticas de higiene das mãos no país. Acesse a página em: //proqualis.net/higienização-das-mãos

Veja também o vídeo de higienização das mãos do Proqualis aqui.  O vídeo faz parte do Programa Nacional de Segurança do Paciente do Ministério da Saúde. 
    

Leia também: 
Campanha da OMS de 2016 tem foco na melhoria das práticas de higiene das mãos no cuidado cirúrgico  

O dia 05 de maio é o Dia Mundial de Higienização das Mãos. Nesta data haverá campanhas em vários países lideradas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), para sensibilizar os profissionais de saúde e os pacientes sobre a higiene das mãos. A melhoria das práticas de higiene das mãos no cuidado cirúrgico é o foco da campanha da OMS deste ano. 

A OMS relata que pacientes cirúrgicos correm o risco de infecções associadas ao cuidado de saúde, em particular infecções do sítio cirúrgico e infecções associadas ao dispositivo, como por exemplo, infecção no trato urinário por uso de cateter. Essa campanha é uma sensibilização para a higienização das mãos no cuidado cirúrgico e também uma prévia para o lançamento da diretriz global sobre a prevenção de infecção de sítio cirúrgico, que será ainda este ano. Todo trabalho foi baseado nos objetivos dos dois desafios globais de segurança do paciente anteriores da OMS: Assistência Limpa é uma Assistência Mais Segura e Cirurgia Segura Salva Vidas. 

O material da campanha da OMS está em inglês e pode ser acessado com doawload gratuito aqui. A hastag oficial da campanha é #safesurgicalhands (em português: mãos cirúrgicas seguras). 

 

Legenda da Foto: da esquerda para direita: Alanna Gomes, Taysa Garcia, Écila Mora, Síntia Evangelista, Nelma Braz e Prof. Adriana Oliveira da UFMG
Crédito: Assessoria de Comunicação EE/UFMG