A política e a ética da prevenção e controle de infecções hospitalares: um estudo de caso qualitativo sobre as percepções de profissionais da saúde sênior em relação aos fatores culturais e profissionais que influenciam as atitudes e práticas dos médicos

Gilbert, G.L. ; Kerridge, I.
Título original:
The politics and ethics of hospital infection prevention and control: A qualitative case study of senior clinicians' perceptions of professional and cultural factors that influence doctors' attitudes and practices in a large Australian hospital
Resumo:

CONTEXTO: Os programas de prevenção e controle de infecções hospitalares (PPCIs) visam minimizar as taxas de infecções relacionadas à assistência à saúde (IRASs) evitáveis e a contração de organismos multirresistentes, que são alguns dos efeitos adversos mais comuns da hospitalização. Nos últimos anos, falhas nos PPCIs hospitalares levaram a surtos nosocomiais e comunitários de infecções emergentes, causando mortes evitáveis e problemas sociais. Portanto, é essencial estabelecer PPCIs eficazes, mas pode ser difícil sustentá-los em ambientes clínicos muito ocupados. A adesão dos profissionais da saúde às práticas rotineiras de controle de infecções muitas vezes encontra-se abaixo da ideal, mas há evidências de que os médicos, como grupo, apresentam uma adesão consistentemente mais baixa que os enfermeiros. Isto é importante, porque os comportamentos dos médicos influenciam desproporcionalmente os de outros profissionais, e a sua prática peripatética gera mais oportunidades para a transmissão de patógenos. Uma melhor compreensão dos fatores que influenciam as práticas de controle de infecções dos médicos contribuirá para o desenvolvimento de novas estratégias para melhorar os PPCIs em geral. MÉTODOS: Este estudo de caso qualitativo envolveu entrevistas aprofundadas com profissionais clínicos e administradores/diretores sênior (16 médicos e 10 enfermeiros) de uma ampla gama de especialidades em um grande hospital terciário australiano, a fim de explorar as suas percepções sobre os fatores profissionais e culturais que influenciam as práticas de controle de infecções dos médicos, usando a análise temática de dados. RESULTADOS: Os principais temas emergentes foram a autonomia profissional/clínica, as pessoas que atuam como líderes e modelos, a incerteza sobre a importância das IRASs e sobre a responsabilidade dos médicos em preveni-las e a falta de clareza sobre as obrigações dos médicos sênior. Os participantes descreveram uma variação importante nas práticas dos diferentes médicos, influenciada pela avaliação dos próprios médicos sobre o risco de infecção em cada paciente e suas crenças sobre a eficácia das políticas dos PPCIs, entre outros fatores. Os participantes consideraram que a maioria dos médicos reconhece a importância das IRASs e prefere, de modo geral, seguir as políticas organizacionais dos PPCIs, mas uma minoria parece desprezar as regras aceitas, desrespeitar os colegas que aderem a elas ou que procuram aplicá-las e mostra-se indiferente aos pacientes cujo cuidado é comprometido. CONCLUSÕES: O fracasso das organizações de saúde e profissionais em lidar com as más práticas de controle de infecções dos médicos, bem como a sua falta de profissionalismo em geral, ameaçam a segurança do paciente e o moral dos profissionais e prejudicam os esforços destinados a minimizar os riscos de infecções hospitalares perigosas. 
 

Resumo Original:

Background: Hospital infection prevention and control (IPC) programs are designed to minimise rates of preventable healthcare-associated infection (HAI) and acquisition of multidrug resistant organisms, which are among the commonest adverse effects of hospitalisation. Failures of hospital IPC in recent years have led to nosocomial and community outbreaks of emerging infections, causing preventable deaths and social disruption. Therefore, effective IPC programs are essential, but can be difficult to sustain in busy clinical environments. Healthcare workers' adherence to routine IPC practices is often suboptimal, but there is evidence that doctors, as a group, are consistently less compliant than nurses. This is significant because doctors' behaviours disproportionately influence those of other staff and their peripatetic practice provides more opportunities for pathogen transmission. A better understanding of what drives doctors' IPC practices will contribute to development of new strategies to improve IPC, overall. Methods: This qualitative case study involved in-depth interviews with senior clinicians and clinician-managers/directors (16 doctors and 10 nurses) from a broad range of specialties, in a large Australian tertiary hospital, to explore their perceptions of professional and cultural factors that influence doctors' IPC practices, using thematic analysis of data. Results: Professional/clinical autonomy; leadership and role modelling; uncertainty about the importance of HAIs and doctors' responsibilities for preventing them; and lack of clarity about senior consultants' obligations emerged as major themes. Participants described marked variation in practices between individual doctors, influenced by, inter alia, doctors' own assessment of patients' infection risk and their beliefs about the efficacy of IPC policies. Participants believed that most doctors recognise the significance of HAIs and choose to [mostly] observe organisational IPC policies, but a minority show apparent contempt for accepted rules, disrespect for colleagues who adhere to, or are expected to enforce, them and indifference to patients whose care is compromised. Conclusions: Failure of healthcare and professional organisations to address doctors' poor IPC practices and unprofessional behaviour, more generally, threatens patient safety and staff morale and undermines efforts to minimise the risks of dangerous nosocomial infection. 
 

Fonte:
; 19(1): 2; 2019. DOI: 10.1186/s12913-019-4044-y.